terça-feira, 25 de junho de 2013

Fallen - No começo

NO COMEÇO


HELSTON, INGLATERRA
SETEMBRO DE 1854

Por volta da meia-noite, os olhos dela por fim tomaram forma. O olhar neles era felino,
parcialmente determinado e parcialmente tentativo – totalmente encrenca. Sim, eles estavam
exatamente certos, aqueles olhos. Levantando-se até suas sobrancelhas refinadas e elegantes, a
centímetros da cascada negra de seu cabelo.
Ele segurou o papel na distância de um braço para avaliar seu progresso. Era difícil, trabalhar
sem ela na sua frente, mas também, ele nunca pode desenhar em sua presença. Desde que ele
tinha chego de Londres – não, desde que ele a viu pela primeira vez – ele tinha que cuidar para
sempre mantê-la à distância.
A cada dia agora ela lhe abordava, e cada dia era mais difícil do que o anterior. Era por isso que
ele ia partir de manhã – para a Índia, para as Américas, ele não sabia e nem ligava. Onde quer
que ele acabasse, seria mais fácil do que estar aqui.
Ele se inclinou sobre seu desenho, novamente, suspirando enquanto usava seu dedão para
aperfeiçoar o biquinho de carvão vegetal borrado de seu lábio inferior. O papel sem vida,
impostor cruel, era a única maneira de levá-la com ele.
Então, se endireitando na cadeira de couro da biblioteca, ele sentiu. O roçar de calor na sua nuca.
Ela.
Sua mera proximidade deu a ele a sensação mais peculiar, como o tipo de quentura mandada
quando uma tora vira cinzas numa fogueira. Ele sabia sem se virar. Ela estava lá. Ele cobriu seu
retrato nos papéis encadernados em seu colo, mas ele não podia escapar dela.
Seus olhos caíram para o sofá acolchoado de marfim do outro lado da sala de visitas, onde
somente horas mais cedo ela tinha aparecido inesperadamente, mais tarde do que o resto de sua
comitiva, em um vestido de seda rosa, para aplaudir a filha mais velha de seu hospedeiro, após
uma boa apresentação no cravo*. Ele olhou para o outro lado da sala, pela janela para a varanda,
onde no dia anterior ela tinha se insinuado até ele, um punhado de peônias selvagens brancas em
sua mão. Ela ainda achava que a atração que ela sentia em relação a ele era inocente, que seus
frequentes encontros no gazebo eram meras... felizes coincidências. Ser tão ingênua! Ele lhe
nunca lhe contaria outra coisa – o segredo era dele para suportar.
* Cravo é a designação dada a qualquer dos membros de uma família europeia de instrumentos
musicais de tecla.
Ele ficou de pé e se virou, os retratos deixados para trás na cadeira de couro. E lá estava ela,
pressionada contra a cortina de veludo rubi em seu simples vestido branco. Seu cabelo negro
tinha e soltado de sua trança. O olhar em seu rosto era o mesmo que ele tinha desenhado tantas
vezes. Havia fogo, subindo em suas bochechas. Ela estava brava? Envergonhada? Ele ansiava
saber, mas não podia se permitir a perguntar.
“O que está fazendo aqui?” Ele conseguia ouvir o rosnado em sua voz, e se arrependeu de sua
aspereza, sabendo que ela nunca entenderia.
“Eu – não consegui dormir,“ ela gaguejou, se movendo na direção do fogo e da cadeira dele. “Eu
vi a luz acesa no seu quarto e então“ – ela pausou, olhando para baixo para suas mãos – “seu
malão está do lado de fora da porta? Você vai a algum lugar?”
“Eu ia te contar –“ Ele paro. Ele não devia mentir. Ele nunca tivera intenção de deixá-la saber de
seus planos. Contar a ela só pioraria as coisas. Certo, ele tinha deixado as coisas irem longe
demais, esperando que dessa vez fosse diferente.
Ela chegou mais perto, e seus olhos caíram para seu caderno de retratos. “Você estava me
desenhando?”
Seu tom assustado o lembrava do quanto a diferença de entendimento era grande entre eles.
Mesmo depois de todo o tempo que eles tinham passado juntos nessas últimas semanas, ela não
tinha ainda começado a vislumbrar a verdade que estava por trás da atração deles.
Isso era bom – ou, pelo menos, era para o melhor. Pelos últimos dias, desde que ele escolhera ir
embora, ele estivera lutando para se afastar dela. O esforço exigia tanto dele que, assim que
ficava sozinho, ele tinha que ceder ao seu desejo reprimido de desenhá-la. Ele tinha enchido seu
caderno com páginas do pescoço arqueado dela, de sua clavícula de mármore, de abismo negro
de seu cabelo.
Agora, ele olhava de volta para seu desenho, não envergonhado por ser pego desenhando-a, mas
pior. Um arrepio gelado espalhou-se por ele enquanto ele percebia que a descoberta dela – a
exposição dos sentimentos dele – destruiriam-na. Ele deveria ter sido mais cuidadoso.Sempre
começava assim.
“Leite quente com uma colherada de melado,” ele murmurou suas costas ainda para ela. Então
ele acrescentou tristemente. “Ajuda a dormir.”
“Como você sabia? Ora, era exatamente isso que a minha mãe costumava–“
“Eu sei,” ele disse, virando-se para encará-la. O assombramento em sua voz não o surpreendeu,
ainda assim, ele não conseguia explicar a ela como ele sabia, ou dizer a ela quantas vezes ele
tinha administrado essa mesma bebida para ela no passado quando as sombras chegavam, como
ele tinha segurado-a até que ela caísse no sono.
Ele sentiu seu toque como se estivesse queimando pela sua camisa, sua mão descansava
gentilmente em seu ombro, fazendo-o arfar. Eles ainda não tinha se tocado nessa vida, e o
primeiro contato sempre o deixava sem fôlego.
“Reponda-me,” ela sussurrou. “Você está partindo?”
“Sim.”
“Então me leve com você,” ela deixou escapar. Bem à deixa, ele observou-a puxar sua
respiração, desejando retirar sua súplica. Ele conseguia ver a progressão de suas emoções se
assentarem no vinco entre seus olhos. Ela se sentiria impetuosa, então desnorteada, então
envergonhada por sua própria audácia. Ela sempre fazia isso, e por vezes demais anteriormente
ele cometera o erro de confortá-la nesse momento exato.
“Não,” ele sussurrou, se lembrando... sempre se lembrando... “Eu zarpo amanhã. Se você ao
menos se importa comigo, não dirá outra palavra.”
“Se eu me importo com você,” ela repetiu, quase como se estivesse falando consigo mesma. “Eu
– eu amo –“
“Não.”
“Eu tenho que dizer isso. Eu – eu te amo, estou bem certa, e se você for embora –“
“Se eu for embora, eu salvo sua vida.” Ele falava devagar, tentando alcançar uma parte dela que
pudesse se lembrar. Isso ao menos estava lá, enterrado em algum lugar? “Algumas coisas são
mais importantes que o amor. Você entenderá, mas tem que confiar em mim.”
Seus olhos perfuraram ele. Ela recuou e cruzou seus braços sobre seu peito. Isso era culpa dele,
também – ele sempre despertava o lado desdenhoso dela quando falava com ela.
“Você quer dizer que há coisas mais importantes que isso?” ela desafiou, tomando as mãos dele
e atraindo-as para seu coração.
Ah, ser ela e não saber o que iria acontecer! Ou pelo menos ser mais forte que ele e capaz de
pará-la. Se ele não parasse ela, ela nunca aprenderia, e o passado simplesmente se repetiria,
torturando-os de novo e de novo.
O calor familiar da pele dela debaixo das mãos dele o fez inclinar sua cabeção para trás e gemer.
Ele estava tentando ignorar o quanto ela estava perto, o quanto ele conhecia bem a sensação dos
lábios dela nos dele, o quanto amargamente ele sentia que tudo isso tinha que acabar. Mas os
dedos dela traçavam os dele tão levemente. Ele conseguia sentir o coração dela correndo por seu
fino vestido de algodão.
Ela estava certa. Não havia nada além disso. Nunca houvera. Ele estava prestes a ceder e tomá-la
em seus braços quando capturou o olhar em seus olhos. Como se ela tivesse visto um fantasma.
Foi ela que se afastou, uma mão em sua testa.
“Estou tendo uma sensação muito estranha,” ela suspirou.
Não – já era tarde demais?
Seus olhos se estreitaram para o formato do retrato dele e ela voltou a ele, suas mãos em seu
peito, seus lábios separados esperançosamente. “Diga que eu estou louca, mas eu juro que
estivesse bem aqui antes...”
Então era tarde demais. Ele olhou para cima, estremecendo, e conseguiu sentir escuridão
descendo. Ele aproveitou a última oportunidade de agarrá-la, de segurá-la tão apertadamente
quanto ele estivera desejando há semanas.
Assim que os lábios dela derreteram nos dele, ambos ficaram impotentes. O gosto de madressilva
da boca dela o deixou tonto. Quanto mais perto ela se pressionava contra ele, mais seu estômago
agitava-se com a animação e a agonia disso tudo. A língua dela traçou a dele, e o fogo entre eles
queimou mais ardentemente, mais quente, mais poderoso com cada toque novo, com cada nova
exploração. Ainda assim, nada disso era novo.
A sala estremeceu. Uma aura ao redor deles começou a brilhar
Ela não notou nada, não estava ciente de nada, não entendia nada além do beijo deles.
Somente ele sabia o que estava prestes a acontecer, que companhia sombrias estavam prestes a
abater-se na reunião deles. Apesar dele ser incapaz de mudar o curso da vida deles mais uma vez,
ele sabia.
As sombras circularam diretamente acima. Tão perto, que ele poderia ter tocado-as. Tão perto,
que ele se perguntava se ela conseguia ouvir o que elas estavam sussurrando. Ele observou a
medida em que a nuvem passou pelo rosto dela. Por um momento ele viu um relampejo de
reconhecimento crescer nos olhos dela.
Então não havia mais nada, nada mesmo.

sábado, 8 de junho de 2013

Capítulo 9

Sussurro - Capitulo 9

 EU CORTEI A MULTIDÃO DO LADO DE DENTRO DA ARCADA, PASSANDO pelo quiosque e pelos banheiros. Quando as mesas de pebolim entraram no campo de visão, Vee não estava em nenhuma delas. Tampouco Elliot ou Jules.
“Parece que eles foram embora,” Patch disse. Seus olhos talvez tenham tido uma fatia de divertimento. Mas também, com o Patch, poderia tão facilmente ter sido algo inteiramente diferente. “Parece que você precisa de uma carona.”
“Vee não me deixaria,” eu disse, ficando na ponta dos pés para ver por sobre o alto da multidão. “Eles provavelmente estão jogando tênis de mesa.”
Eu passei a multidão pela lateral enquanto Patch seguia atrás, entornando uma lata de refrigerante que tinha comprado no caminho. Ele tinha se oferecido para me comprar uma, mas no meu estado atual, eu não estava certa se conseguiria segurá-la.
Não havia rastros da Vee ou do Elliot nas mesas de tênis.
“Talvez eles estejam nas máquinas de fliperama,” Patch sugeriu. Ele definitivamente estava caçoando de mim.
Eu me senti ficar um pouco vermelha no rosto. Onde estava a Vee?
Patch ofereceu seu refrigerante. “Certeza que não quer uma bebida?”
Eu olhei da lata para o Patch. Só porque o meu sangue esquentava ao pensar em colocar a minha boca onde a dele estivera não queria dizer que eu tinha que contar a ele.
Eu escavei a minha bolsa e puxei meu celular. A tela no meu telefone estava preta e se recusava a ligar. Eu não entendia como a bateria podia ter acabado quando eu havia carregado-a logo antes de ir embora. Eu apertei o botão de ligar continuamente, mas nada aconteceu.
Patch disse, “Minha oferta ainda está de pé.”
Eu pensei que ficaria mais segura pegando carona de um estranho. Eu ainda estava balançada por causa do que tinha acontecido no Arcanjo, e não importava quantas vezes eu tentasse apagar isso, o imaginário de cair repetia-se na minha cabeça. Eu estava caindo... e então o passeio tinha acabado. Bem assim. Era a coisa mais aterrorizante pela qual eu já tinha passado. Quase tão aterrorizante era que eu era a única que parecera notar. Nem mesmo o Patch, que tinha estado bem ao meu lado.
Eu bati minha palma na minha testa. “O carro dela. Ela está provavelmente me esperando no estacionamento.”
Trinta minutos mais tarde eu já havia caçado o estacionamento todo. O Neon tinha ido embora. Eu não acreditava que a Vee tinha ido embora sem mim. Talvez tivesse havido uma emergência. Eu não tinha como saber, já que não podia checar as mensagens no meu celular. Eu tentei conter as minhas emoções, mas se ela tivesse me deixado, eu tinha uma ampla quantidade de raiva fervendo sob a superfície, pronta para derramar.
“Já está sem opções?” perguntou o Patch.
Eu mordi meu lábio, pesando minhas outras opções. Eu não tinha outras opções. Infelizmente, eu não estava certa se estava pronta para aceitar a oferta do Patch. Em um dia normal, ele exalava perigo. Hoje havia uma mistura potente de perigo, ameaça, e mistério, todos juntos.Finalmente eu soltei um suspiro e rezei para não estar prestes a cometer um erro.
“Você me levará diretamente para casa,” eu disse. Soava mais como uma pergunta do que uma ordem.
“Se é isso que você quer.”
Eu estava prestes a perguntar ao Patch se ele tinha notado algo de estranho no Arcanjo, quando eu me impedi. Eu estava assustada demais para perguntar. E se eu estava vendo coisas que não estavam realmente acontecendo? Primeiro o cara com a máscara de esqui. Agora isso. Eu tinha bastante certeza que o Patch falando com a minha mente era real, mas o resto? Não tinha tanta certeza.
Patch se aproximou algumas vagas. Uma moto preta brilhante descansava no estribo lateral. Ele subiu e inclinou sua cabeça para o assento atrás de si. “Sobe aí.”
“Uau. Bike legal,” eu disse. O que era uma mentira. Parecia como uma armadilha mortal preta brilhante. Eu nunca tinha subido numa moto, na minha vida, nunca. Eu não estava certa se queria mudar isso hoje à noite.
“Eu gosto da sensação do vento no meu rosto,” eu continuei, esperando que minha bravata mascarasse o meu terror de me deslocar em velocidade acima de 104 quilômetros por hora com nada entre mim e a estrada.
Havia um capacete – preto com um visor escuro – e ele o segurou para mim.
Tomando-o, eu passei a minha perna por cima da bike e percebi como me sentia insegura com nada além de uma tira de assento debaixo de mim. Eu deslizei o capacete por sobre os meus cachos e o prendi debaixo do meu queixo.
“É difícil dirigir?” eu perguntei. O que eu realmente quis dizer era, É seguro?
“Não,” Patch disse, respondendo tanto a minha pergunta proclamada quanto a não. Ele riu suavemente. “Você está tensa. Relaxe.”
Quando ele saiu do estacionamento, a explosão de movimento me assustou; eu estivera segurando a camiseta dele com justo o bastante de tecido entre os meus dedos para manter meu equilíbrio. Agora eu lacei meus braços ao redor dele em um abraço de urso ao contrário.
Patch acelerou na rodovia, e minhas coxas se apertaram ao redor dele. Eu esperei ter sido a única a notar.
Quando alcançamos a minha casa, Patch parou a bike na estrada ensopada de névoa, parou o motor, e pulou fora. Eu removi meu capacete, equilibrando-o cuidadosamente no assento na minha frente, e abri a minha boca para dizer algo do tipo Obrigada pela carona, te vejo segunda.
As palavras dissolveram a medida em que o Patch cruzava a entrada e se dirigia para os degraus da varanda.
Eu não conseguia começar a especular o que ele estava fazendo. Andando comigo até a porta? Altamente improvável. Então... o quê?
Eu subi na varanda atrás dele e encontrei-o na porta. Eu observei, dividida entre confusão e uma preocupação escalante, a medida em que ele retirava um molho de chaves familiares de seu bolso e inseria a chave da minha casa na fechadura.
“Devolve as minhas chaves,” eu disse, desconcertada por não saber como as minhas chaves tinham ido parar na posse dele.
“Você derrubou elas na arcada quando estava caçando o seu celular,” ele disse.
“Não ligo onde eu as derrubei. Devolva-as.”
Patch ergueu suas mãos, clamando inocência, e se afastou da porta. Ele inclinou um ombro contra os tijolos e me observou chegar até a fechadura. Eu tentei virar a chave. Eu dei um passo para trás. “Vá em frente. Tente. Está presa.”
Com um clique afiado, ele virou a chave. A mão postada na maçaneta, ele arqueou suas sobrancelhas como se para dizer Posso?
Eu engoli em seco, enterrando uma onda de fascínio mútuo e inquietação. “Vá em frente. Não vai esbarrar em ninguém. Estou sozinha em casa.”
“A noite toda?”Imediatamente, eu percebi que podia não ter sido a coisa mais esperta a se dizer. “Dorothea virá logo.” Isso era mentira. Dorothea há muito tinha ido. Estava perto da meia-noite.
“Dorothea?”
“A empregada. Ela é velha – mas forte. Muito forte.” Eu tentei me espremer para passar por ele. Sem sucesso.
“Soa aterrorizante,” ele disse, retirando a chave da fechadura. Ele a segurou para mim.
“Ela consegue limpar uma privada dentro e fora em menos de um minuto. Está mais para assustador.” Tomando a chave, eu passei ao redor dele. Eu tinha plenas intenções de fechar a porta entre nós, mas enquanto me virava, Patch preencheu a entrada, seus braços apoiados em ambos os lados da moldura.
“Não vai me convidar para entrar?” ele perguntou, sorrindo.
Eu pestanejei. Convidá-lo a entrar? Na minha casa? Com ninguém mais em casa?
Patch disse, “É tarde.” Seus olhos seguiram os meus de perto, refletindo um brilho caprichoso. “Você deve estar com fome.”
“Não. Sim. Eu quero dizer, sim, mas –”
De repente ele estava do lado de dentro.
Eu dei três passos para trás; ele cutucou a porta com seu pé para fechá-la. “Gosta de mexicana?” ele perguntou.
“Eu –” Eu gostaria de saber o que você está fazendo dentro da minha casa!
“Tacos?”
“Tacos?” eu ecoei.
Isso pareceu diverti-lo. “Tomates, alface, queijo.”
“Eu sei o que é um taco!”
Antes que eu pudesse impedi-lo, ele passou cavalgando por mim para dentro da casa. No fim do corredor, ele dirigiu-se a esquerda. Para a cozinha.
Ele foi até a pia e abriu a torneira enquanto esfregava sabão até a metade de seus braços. Aparentemente tendo ficado à vontade, ele foi primeiro para a despensa, então pesquisou a geladeira, pegando itens aqui e ali – salsa, queijo, alface, um tomate. Então ele escavou as gavetas e achou uma faca.
Eu suspeitei que estava na metade de um ataque de pânico com a imagem do Patch segurando uma faca quando outra coisa capturou minha atenção. Eu dei dois passos para frente e olhei de soslaio para o meu reflexo em uma das frigideiras suspensas no pendura-panelas. Meu cabelo! Parecia um arbusto seco gigante que tinha rolado para o alto da minha cabeça. Eu bati uma mão na minha boca.
Patch sorriu. “Você tem cabelo ruivo natural?”
Eu o encarei. “Eu não tenho cabelo ruivo.”
“Odeio ter que te informar disso, mas é ruivo. Eu podia tocar fogo nele e ele não ficaria mais vermelho.”
“É castanho.” Então talvez eu tivesse a menor, mais minúscula, mais infinitesimal quantidade de castanho avermelhado no meu cabelo. Eu ainda era morena. “É a iluminação,” eu disse.
“É talvez sejam as lâmpadas incandescentes.” O sorriso dele levantou ambos os cantos de sua boca, e uma covinha surgiu.
“Eu volto logo,” eu disse, me apressando para fora da cozinha.
Eu subi as escadas e prendi meu cabelo em um rabo de cavalo. Com isso fora do caminho, eu juntei meus pensamentos. Eu não estava totalmente confortável com a ideia do Patch vagando livremente pela minha casa – armado com uma faca. E a minha mãe me mataria se descobrisse que eu tinha convidado Patch para entrar quando Dorothea não estava.
“Pode ficar para outro dia?” eu perguntei ao encontrá-lo ainda trabalhando arduamente na cozinha dois minutos mais tarde. Eu coloquei uma mão no meu estômago, sinalizando que ele estava me incomodando. “Enjoada,” eu disse. “Eu acho que foi a carona.”
Ele parou de cortar e olhou para cima. “Eu quase acabei.”
Eu notei que ele tinha trocado de faca por uma lâmina maior – e mais afiada.
Como se ele tivesse uma janela para os meus pensamentos, ele levantou a faca, examinando-a. A lâmina brilhou na luz. Meu estômago se apertou.
“Abaixa a faca,” eu instrui silenciosamente.
Patch olhou de mim para a faca e então novamente. Após um minuto ele a deitou na minha frente. “Não vou te machucar, Nora.”
“Isso é... tranqüilizante,” eu consegui dizer, mas minha garganta estava apertada e seca.
Ele girou a faca, o cabo apontado na minha direção. “Vem aqui. Vou te ensinar a fazer tacos.”
Eu não me movi. Havia um brilho nos olhos dele que me fez pensar que eu devia estar com medo dele... e eu estava. Mas aquele medo era igualmente fascinante. Havia algo extremamente perturbador em estar perto dele. Na presença dele, eu não confiava em mim mesma.
“Que tal... um acordo?” Seu rosto estava curvado, enegrecido e ele olhou para mim através de seus cílios. O efeito era uma impressão de integridade. “Me ajude a fazer tacos, e eu responderei algumas de suas perguntas.”
“Minhas perguntas.”
“Eu acho que você sabe o que eu quero dizer.”
Eu sabia exatamente o que ele queria dizer. Ele estava me dando um vislumbre de seu mundo particular. Um mundo onde ele conseguia falar com a
minha mente. Novamente ele sabia exatamente o que dizer, exatamente no momento certo.
Sem uma palavra, eu me movi para seu lado. Ele deslizou a tábua de corte na minha frente.
“Primeiro,” ele disse, vindo por trás de mim e colocando suas mãos no balcão, bem do lado das minhas, “escolha o seu tomate.” Ele abaixou sua cabeça para que sua boca estivesse na minha orelha. Seu hálito estava quente, fazendo cócegas na minha pele. “Ótimo. Agora, pegue a faca.”
“O chefe sempre fica tão perto?” eu perguntei, não certa se eu gostava ou temia a palpitação que sua proximidade causava dentro de mim.
“Quando ele está revelando segredos culinários, sim. Segure a faca com vontade.”
“Eu estou segurando.”
“Ótimo.” Recuando, ele me deu uma olhada minuciosa, parecendo escrutinar cada imperfeição – seus olhos moviam-se para cima e para baixo, aqui e ali. Para cada momento enervante, eu pensei ter visto um sorriso secreto de aprovação. “Cozinhar não é algo que se ensina,” Patch disse. “É herdado. Ou você tem ou não tem. Como química. Você acha que está pronta para química?”
Eu pressionei a faca pelo tomate; ele foi dividido em dois, cada metade balançando gentilmente na tábua de corte. “Me diz você. Estou pronta para química?”
Patch fez um som profundo que eu não consegui decifrar e sorriu ironicamente.
Após o jantar, Patch levou nossos pratos para a pia. “Eu lavo, você seca.” Caçando nas gavetas na lateral da pia, ele achou um pano de prato e o tirou brincalhonamente para mim.
“Estou pronta para te fazer aquelas perguntas,” eu disse. “Começando com aquela noite na biblioteca. Você me seguiu...”
Eu dissipei. Patch se inclinou preguiçosamente contra a bancada. Cabelo negro saia debaixo de seu boné de beisebol. Um sorriso repuxou as boca. Meus pensamentos dissolveram e bem assim, um pensamento novo penetrou a superfície da minha mente.
Eu quero beijá-lo. Agora.
Patch arqueou suas sobrancelhas. “O quê?”
“Hãn – nada. Nada mesmo. Você lava, eu seco.”
O que aconteceu com tratar Patch como seu pior hábito? Eu perguntei a mim mesma. O que aconteceu com jogar fora o velho, e ficar com o novo?
Não levou muito para terminar com os pratos, e quando terminamos, nos encontramos comprimidos no espaço próximo a pia. Patch se deslocou para pegar o pano de mim, e nossos corpos se tocaram. Nenhum de nós se moveu, segurando o elo frágil que nos unia.
Eu recuei primeiro.
“Assustada?” ele murmurou.
“Não.”
“Mentira.”
Meu pulso subiu um degrau. “Não tenho medo de você.”
“Não?”
Eu falei sem pensar. “Talvez seja só que eu tenha medo de –” eu me amaldiçoei por ter começado a frase. O que eu deveria dizer agora? Eu não estava prestes a admitir para o Patch que tudo nele me assustava. Isso lhe dava permissão para me provocar ainda mais. “Talvez seja só que eu tenha medo de... de –”
“Gostar de mim?”
Aliviada por não ter que terminar minha própria fase, eu automaticamente respondi, “Sim.” Eu percebi tarde demais o que havia confessado. “Quero dizer, não! Definitivamente não. Não era isso que eu estava tentando fazer!”
Patch riu suavemente.
“A verdade é que, parte de mim definitivamente não fica confortável ao seu redor,” eu disse.
Eu agarrei a bancada atrás de mim para me apoiar. “Mas ao mesmo tempo eu sinto uma atração assustadora por você.”
Patch sorriu ironicamente.
“Você é metido demais,” eu disse, usando minha mão para empurrá-lo um passo para longe.
Ele prendeu a minha mão contra seu peito e puxou minha manga pelo meu pulso, cobrindo minha mão com ela. Tão rapidamente quanto, ele fez a mesma coisa com minha outra manga. Ele segurou minha camiseta pelos punhos, minhas mãos capturadas. Minha boca se abriu em protesto.
Me puxando para mais perto, ele não parou até que eu estivesse diretamente na frente dele. De repente ele me levantou na bancada. Meu rosto estava no nível do dele. Ele me fixou com um sorriso negro e convidativo. E foi aí que eu percebi que esse momento estivera dançando nas beiradas das minhas fantasias por diversos dias já.
“Tire seu boné,” eu disse, as palavras saindo antes que eu pudesse impedi-las.
Ele o deslizou ao redor, a aba para trás.
Eu me movi para a beirada da bancada, minhas pernas balançando de cada lado das dele. Algo dentro de mim estava me dizendo para parar – mas eu varri essa voz para o fundo da minha mente.
Ele esparramou suas mãos na bancada, bem do lado de fora dos meus quadris. Inclinando sua cabeça para um lado, ele se moveu mais para perto. O cheiro dele, que era todo de terra escura úmida, me inundou.
Eu inalei duas respirações agudas. Não. Isso não estava certo. Isso não, não com o Patch. Ele era assustador. De um jeito bom, sim. Mas também de um jeito ruim. Um jeito muito ruim.
“Você deveria ir,” eu respirei. “Você definitivamente deveria ir.”
“Ir para cá?” Sua boca estava no meu ombro. “Ou para cá?” Ela se moveu para o meu pescoço.
Meu cérebro não conseguia processar um pensamento lógico. A boca do Patch estava perambulando para o norte, sobre a minha mandíbula, sugando gentilmente minha pele...
“Minhas pernas estão adormecendo,” eu soltei. Não era uma mentira total. Eu estava experimentando sensações de formigamento por todo o meu corpo, inclusive as pernas.
“Eu posso resolver isso.” As mãos do Patch se fecharam nos meus quadris.
De repente meu telefone celular tocou. Eu pulei ao som dele e tateie-o no meu bolso.
“Oi, docinho,” minha mãe disse alegremente.
“Posso te ligar de volta?”
“Claro. O que está acontecendo?”
Eu desliguei o telefone. “Você precisa ir embora,” eu disse ao Patch. “Agora.”
Ele deslizou seu boné de beisebol de volta. Sua boca era o único traço que eu conseguia ver por debaixo dele, e ela se curvou em um sorriso travesso. “Você não está usando maquiagem.”
“Eu devo ter esquecido.”
“Bons sonhos essa noite.”
“Claro. Sem problema.” O que ele tinha dito?
“Sobre aquela festa amanhã à noite...”
“Eu pensarei nisso,” eu consegui dizer.
Patch enfiou um pedaço de papel dentro do meu bolso, seu toque mandando sensações quentes pelas minhas pernas. “Aqui está o endereço. Eu estarei te procurando. Venha sozinha.”
Um momento mais tarde eu escutei a porta da frente fechar atrás de mim. Um rubor feroz subiu até o meu rosto. Perto demais, eu pensei. Não havia nada de errado com fogo... contanto que você não chegasse muito perto. Algo para se ter em mente.
Eu me inclinei contra os armários, tomando fôlegos curtos e rasos.

O Gaurdião - Nicholas Sparks

Quarenta dias após a morte de seu marido, Julie Barenson recebe uma encomenda deixada por ele. Dentro da caixa, encontra um filhote de cachorro dinamarquês e um bilhete no qual Jim promete que sempre cuidará dela. Quatro anos mais tarde, Julie já não pode depender apenas da companhia do fiel Singer, o filhotinho que se tornou um cachorro enorme e estabanado. Depois de tanto sofrimento, ela enfim está pronta para voltar a amar, mas seus primeiros encontros não são nada promissores. Até que surge Richard Franklin, um belo e sofisticado engenheiro que a trata como uma rainha. Julie está animada como havia muito tempo não se sentia, mas, por alguma razão, não consegue compartilhar isso com Mike Harris, seu melhor amigo. Ele, por sua vez, é incapaz de esconder o ciúme que sente dela. Quando percebe que seu desconforto diante de Mike é causado por um sentimento mais forte que amizade, Julie se vê dividida entre esses dois homens. Ela tem que tomar uma decisão. Só não pode imaginar que, em vez de lhe trazer felicidade, essa escolha colocará sua vida em perigo. “O guardião” contém tudo o que os leitores esperam de um romance de Nicholas Sparks, mas desta vez ele se reinventa e acrescenta um novo ingrediente à trama: páginas e mais páginas de muito suspense.Leia um trecho deste livro!

segunda-feira, 3 de junho de 2013

O Casamento - Nicholas Sparks

Após quase 30 anos de casamento, Wilson Lewis é obrigado a encarar uma dolorosa verdade: sua esposa, Jane, parece ter deixado de amá-lo, e ele é o único culpado disso.

Viciado em trabalho, Wilson costumava passar mais tempo no escritório do que com a família. Além disso, nunca conseguiu ser romântico como o sogro era com a própria mulher. A história de amor dos pais de Jane, contada em Diário de uma paixão, sempre foi um exemplo para os filhos de como um casamento deveria ser.

Diante da incapacidade do marido de expressar suas emoções, Jane começa a duvidar de que tenha feito a escolha certa ao se casar com ele. Wilson, porém, sente que seu amor pela esposa só cresceu ao longo dos anos. Agora que seu relacionamento está ameaçado, ele vai fazer o que for necessário para se tornar o homem que Jane sempre desejou que ele fosse.

Em O casamento, Nicholas Sparks faz os leitores relembrarem a alegria de se apaixonar e o desafio de se manterem apaixonados.