terça-feira, 25 de junho de 2013

Fallen - No começo

NO COMEÇO


HELSTON, INGLATERRA
SETEMBRO DE 1854

Por volta da meia-noite, os olhos dela por fim tomaram forma. O olhar neles era felino,
parcialmente determinado e parcialmente tentativo – totalmente encrenca. Sim, eles estavam
exatamente certos, aqueles olhos. Levantando-se até suas sobrancelhas refinadas e elegantes, a
centímetros da cascada negra de seu cabelo.
Ele segurou o papel na distância de um braço para avaliar seu progresso. Era difícil, trabalhar
sem ela na sua frente, mas também, ele nunca pode desenhar em sua presença. Desde que ele
tinha chego de Londres – não, desde que ele a viu pela primeira vez – ele tinha que cuidar para
sempre mantê-la à distância.
A cada dia agora ela lhe abordava, e cada dia era mais difícil do que o anterior. Era por isso que
ele ia partir de manhã – para a Índia, para as Américas, ele não sabia e nem ligava. Onde quer
que ele acabasse, seria mais fácil do que estar aqui.
Ele se inclinou sobre seu desenho, novamente, suspirando enquanto usava seu dedão para
aperfeiçoar o biquinho de carvão vegetal borrado de seu lábio inferior. O papel sem vida,
impostor cruel, era a única maneira de levá-la com ele.
Então, se endireitando na cadeira de couro da biblioteca, ele sentiu. O roçar de calor na sua nuca.
Ela.
Sua mera proximidade deu a ele a sensação mais peculiar, como o tipo de quentura mandada
quando uma tora vira cinzas numa fogueira. Ele sabia sem se virar. Ela estava lá. Ele cobriu seu
retrato nos papéis encadernados em seu colo, mas ele não podia escapar dela.
Seus olhos caíram para o sofá acolchoado de marfim do outro lado da sala de visitas, onde
somente horas mais cedo ela tinha aparecido inesperadamente, mais tarde do que o resto de sua
comitiva, em um vestido de seda rosa, para aplaudir a filha mais velha de seu hospedeiro, após
uma boa apresentação no cravo*. Ele olhou para o outro lado da sala, pela janela para a varanda,
onde no dia anterior ela tinha se insinuado até ele, um punhado de peônias selvagens brancas em
sua mão. Ela ainda achava que a atração que ela sentia em relação a ele era inocente, que seus
frequentes encontros no gazebo eram meras... felizes coincidências. Ser tão ingênua! Ele lhe
nunca lhe contaria outra coisa – o segredo era dele para suportar.
* Cravo é a designação dada a qualquer dos membros de uma família europeia de instrumentos
musicais de tecla.
Ele ficou de pé e se virou, os retratos deixados para trás na cadeira de couro. E lá estava ela,
pressionada contra a cortina de veludo rubi em seu simples vestido branco. Seu cabelo negro
tinha e soltado de sua trança. O olhar em seu rosto era o mesmo que ele tinha desenhado tantas
vezes. Havia fogo, subindo em suas bochechas. Ela estava brava? Envergonhada? Ele ansiava
saber, mas não podia se permitir a perguntar.
“O que está fazendo aqui?” Ele conseguia ouvir o rosnado em sua voz, e se arrependeu de sua
aspereza, sabendo que ela nunca entenderia.
“Eu – não consegui dormir,“ ela gaguejou, se movendo na direção do fogo e da cadeira dele. “Eu
vi a luz acesa no seu quarto e então“ – ela pausou, olhando para baixo para suas mãos – “seu
malão está do lado de fora da porta? Você vai a algum lugar?”
“Eu ia te contar –“ Ele paro. Ele não devia mentir. Ele nunca tivera intenção de deixá-la saber de
seus planos. Contar a ela só pioraria as coisas. Certo, ele tinha deixado as coisas irem longe
demais, esperando que dessa vez fosse diferente.
Ela chegou mais perto, e seus olhos caíram para seu caderno de retratos. “Você estava me
desenhando?”
Seu tom assustado o lembrava do quanto a diferença de entendimento era grande entre eles.
Mesmo depois de todo o tempo que eles tinham passado juntos nessas últimas semanas, ela não
tinha ainda começado a vislumbrar a verdade que estava por trás da atração deles.
Isso era bom – ou, pelo menos, era para o melhor. Pelos últimos dias, desde que ele escolhera ir
embora, ele estivera lutando para se afastar dela. O esforço exigia tanto dele que, assim que
ficava sozinho, ele tinha que ceder ao seu desejo reprimido de desenhá-la. Ele tinha enchido seu
caderno com páginas do pescoço arqueado dela, de sua clavícula de mármore, de abismo negro
de seu cabelo.
Agora, ele olhava de volta para seu desenho, não envergonhado por ser pego desenhando-a, mas
pior. Um arrepio gelado espalhou-se por ele enquanto ele percebia que a descoberta dela – a
exposição dos sentimentos dele – destruiriam-na. Ele deveria ter sido mais cuidadoso.Sempre
começava assim.
“Leite quente com uma colherada de melado,” ele murmurou suas costas ainda para ela. Então
ele acrescentou tristemente. “Ajuda a dormir.”
“Como você sabia? Ora, era exatamente isso que a minha mãe costumava–“
“Eu sei,” ele disse, virando-se para encará-la. O assombramento em sua voz não o surpreendeu,
ainda assim, ele não conseguia explicar a ela como ele sabia, ou dizer a ela quantas vezes ele
tinha administrado essa mesma bebida para ela no passado quando as sombras chegavam, como
ele tinha segurado-a até que ela caísse no sono.
Ele sentiu seu toque como se estivesse queimando pela sua camisa, sua mão descansava
gentilmente em seu ombro, fazendo-o arfar. Eles ainda não tinha se tocado nessa vida, e o
primeiro contato sempre o deixava sem fôlego.
“Reponda-me,” ela sussurrou. “Você está partindo?”
“Sim.”
“Então me leve com você,” ela deixou escapar. Bem à deixa, ele observou-a puxar sua
respiração, desejando retirar sua súplica. Ele conseguia ver a progressão de suas emoções se
assentarem no vinco entre seus olhos. Ela se sentiria impetuosa, então desnorteada, então
envergonhada por sua própria audácia. Ela sempre fazia isso, e por vezes demais anteriormente
ele cometera o erro de confortá-la nesse momento exato.
“Não,” ele sussurrou, se lembrando... sempre se lembrando... “Eu zarpo amanhã. Se você ao
menos se importa comigo, não dirá outra palavra.”
“Se eu me importo com você,” ela repetiu, quase como se estivesse falando consigo mesma. “Eu
– eu amo –“
“Não.”
“Eu tenho que dizer isso. Eu – eu te amo, estou bem certa, e se você for embora –“
“Se eu for embora, eu salvo sua vida.” Ele falava devagar, tentando alcançar uma parte dela que
pudesse se lembrar. Isso ao menos estava lá, enterrado em algum lugar? “Algumas coisas são
mais importantes que o amor. Você entenderá, mas tem que confiar em mim.”
Seus olhos perfuraram ele. Ela recuou e cruzou seus braços sobre seu peito. Isso era culpa dele,
também – ele sempre despertava o lado desdenhoso dela quando falava com ela.
“Você quer dizer que há coisas mais importantes que isso?” ela desafiou, tomando as mãos dele
e atraindo-as para seu coração.
Ah, ser ela e não saber o que iria acontecer! Ou pelo menos ser mais forte que ele e capaz de
pará-la. Se ele não parasse ela, ela nunca aprenderia, e o passado simplesmente se repetiria,
torturando-os de novo e de novo.
O calor familiar da pele dela debaixo das mãos dele o fez inclinar sua cabeção para trás e gemer.
Ele estava tentando ignorar o quanto ela estava perto, o quanto ele conhecia bem a sensação dos
lábios dela nos dele, o quanto amargamente ele sentia que tudo isso tinha que acabar. Mas os
dedos dela traçavam os dele tão levemente. Ele conseguia sentir o coração dela correndo por seu
fino vestido de algodão.
Ela estava certa. Não havia nada além disso. Nunca houvera. Ele estava prestes a ceder e tomá-la
em seus braços quando capturou o olhar em seus olhos. Como se ela tivesse visto um fantasma.
Foi ela que se afastou, uma mão em sua testa.
“Estou tendo uma sensação muito estranha,” ela suspirou.
Não – já era tarde demais?
Seus olhos se estreitaram para o formato do retrato dele e ela voltou a ele, suas mãos em seu
peito, seus lábios separados esperançosamente. “Diga que eu estou louca, mas eu juro que
estivesse bem aqui antes...”
Então era tarde demais. Ele olhou para cima, estremecendo, e conseguiu sentir escuridão
descendo. Ele aproveitou a última oportunidade de agarrá-la, de segurá-la tão apertadamente
quanto ele estivera desejando há semanas.
Assim que os lábios dela derreteram nos dele, ambos ficaram impotentes. O gosto de madressilva
da boca dela o deixou tonto. Quanto mais perto ela se pressionava contra ele, mais seu estômago
agitava-se com a animação e a agonia disso tudo. A língua dela traçou a dele, e o fogo entre eles
queimou mais ardentemente, mais quente, mais poderoso com cada toque novo, com cada nova
exploração. Ainda assim, nada disso era novo.
A sala estremeceu. Uma aura ao redor deles começou a brilhar
Ela não notou nada, não estava ciente de nada, não entendia nada além do beijo deles.
Somente ele sabia o que estava prestes a acontecer, que companhia sombrias estavam prestes a
abater-se na reunião deles. Apesar dele ser incapaz de mudar o curso da vida deles mais uma vez,
ele sabia.
As sombras circularam diretamente acima. Tão perto, que ele poderia ter tocado-as. Tão perto,
que ele se perguntava se ela conseguia ouvir o que elas estavam sussurrando. Ele observou a
medida em que a nuvem passou pelo rosto dela. Por um momento ele viu um relampejo de
reconhecimento crescer nos olhos dela.
Então não havia mais nada, nada mesmo.

sábado, 8 de junho de 2013

Capítulo 9

Sussurro - Capitulo 9

 EU CORTEI A MULTIDÃO DO LADO DE DENTRO DA ARCADA, PASSANDO pelo quiosque e pelos banheiros. Quando as mesas de pebolim entraram no campo de visão, Vee não estava em nenhuma delas. Tampouco Elliot ou Jules.
“Parece que eles foram embora,” Patch disse. Seus olhos talvez tenham tido uma fatia de divertimento. Mas também, com o Patch, poderia tão facilmente ter sido algo inteiramente diferente. “Parece que você precisa de uma carona.”
“Vee não me deixaria,” eu disse, ficando na ponta dos pés para ver por sobre o alto da multidão. “Eles provavelmente estão jogando tênis de mesa.”
Eu passei a multidão pela lateral enquanto Patch seguia atrás, entornando uma lata de refrigerante que tinha comprado no caminho. Ele tinha se oferecido para me comprar uma, mas no meu estado atual, eu não estava certa se conseguiria segurá-la.
Não havia rastros da Vee ou do Elliot nas mesas de tênis.
“Talvez eles estejam nas máquinas de fliperama,” Patch sugeriu. Ele definitivamente estava caçoando de mim.
Eu me senti ficar um pouco vermelha no rosto. Onde estava a Vee?
Patch ofereceu seu refrigerante. “Certeza que não quer uma bebida?”
Eu olhei da lata para o Patch. Só porque o meu sangue esquentava ao pensar em colocar a minha boca onde a dele estivera não queria dizer que eu tinha que contar a ele.
Eu escavei a minha bolsa e puxei meu celular. A tela no meu telefone estava preta e se recusava a ligar. Eu não entendia como a bateria podia ter acabado quando eu havia carregado-a logo antes de ir embora. Eu apertei o botão de ligar continuamente, mas nada aconteceu.
Patch disse, “Minha oferta ainda está de pé.”
Eu pensei que ficaria mais segura pegando carona de um estranho. Eu ainda estava balançada por causa do que tinha acontecido no Arcanjo, e não importava quantas vezes eu tentasse apagar isso, o imaginário de cair repetia-se na minha cabeça. Eu estava caindo... e então o passeio tinha acabado. Bem assim. Era a coisa mais aterrorizante pela qual eu já tinha passado. Quase tão aterrorizante era que eu era a única que parecera notar. Nem mesmo o Patch, que tinha estado bem ao meu lado.
Eu bati minha palma na minha testa. “O carro dela. Ela está provavelmente me esperando no estacionamento.”
Trinta minutos mais tarde eu já havia caçado o estacionamento todo. O Neon tinha ido embora. Eu não acreditava que a Vee tinha ido embora sem mim. Talvez tivesse havido uma emergência. Eu não tinha como saber, já que não podia checar as mensagens no meu celular. Eu tentei conter as minhas emoções, mas se ela tivesse me deixado, eu tinha uma ampla quantidade de raiva fervendo sob a superfície, pronta para derramar.
“Já está sem opções?” perguntou o Patch.
Eu mordi meu lábio, pesando minhas outras opções. Eu não tinha outras opções. Infelizmente, eu não estava certa se estava pronta para aceitar a oferta do Patch. Em um dia normal, ele exalava perigo. Hoje havia uma mistura potente de perigo, ameaça, e mistério, todos juntos.Finalmente eu soltei um suspiro e rezei para não estar prestes a cometer um erro.
“Você me levará diretamente para casa,” eu disse. Soava mais como uma pergunta do que uma ordem.
“Se é isso que você quer.”
Eu estava prestes a perguntar ao Patch se ele tinha notado algo de estranho no Arcanjo, quando eu me impedi. Eu estava assustada demais para perguntar. E se eu estava vendo coisas que não estavam realmente acontecendo? Primeiro o cara com a máscara de esqui. Agora isso. Eu tinha bastante certeza que o Patch falando com a minha mente era real, mas o resto? Não tinha tanta certeza.
Patch se aproximou algumas vagas. Uma moto preta brilhante descansava no estribo lateral. Ele subiu e inclinou sua cabeça para o assento atrás de si. “Sobe aí.”
“Uau. Bike legal,” eu disse. O que era uma mentira. Parecia como uma armadilha mortal preta brilhante. Eu nunca tinha subido numa moto, na minha vida, nunca. Eu não estava certa se queria mudar isso hoje à noite.
“Eu gosto da sensação do vento no meu rosto,” eu continuei, esperando que minha bravata mascarasse o meu terror de me deslocar em velocidade acima de 104 quilômetros por hora com nada entre mim e a estrada.
Havia um capacete – preto com um visor escuro – e ele o segurou para mim.
Tomando-o, eu passei a minha perna por cima da bike e percebi como me sentia insegura com nada além de uma tira de assento debaixo de mim. Eu deslizei o capacete por sobre os meus cachos e o prendi debaixo do meu queixo.
“É difícil dirigir?” eu perguntei. O que eu realmente quis dizer era, É seguro?
“Não,” Patch disse, respondendo tanto a minha pergunta proclamada quanto a não. Ele riu suavemente. “Você está tensa. Relaxe.”
Quando ele saiu do estacionamento, a explosão de movimento me assustou; eu estivera segurando a camiseta dele com justo o bastante de tecido entre os meus dedos para manter meu equilíbrio. Agora eu lacei meus braços ao redor dele em um abraço de urso ao contrário.
Patch acelerou na rodovia, e minhas coxas se apertaram ao redor dele. Eu esperei ter sido a única a notar.
Quando alcançamos a minha casa, Patch parou a bike na estrada ensopada de névoa, parou o motor, e pulou fora. Eu removi meu capacete, equilibrando-o cuidadosamente no assento na minha frente, e abri a minha boca para dizer algo do tipo Obrigada pela carona, te vejo segunda.
As palavras dissolveram a medida em que o Patch cruzava a entrada e se dirigia para os degraus da varanda.
Eu não conseguia começar a especular o que ele estava fazendo. Andando comigo até a porta? Altamente improvável. Então... o quê?
Eu subi na varanda atrás dele e encontrei-o na porta. Eu observei, dividida entre confusão e uma preocupação escalante, a medida em que ele retirava um molho de chaves familiares de seu bolso e inseria a chave da minha casa na fechadura.
“Devolve as minhas chaves,” eu disse, desconcertada por não saber como as minhas chaves tinham ido parar na posse dele.
“Você derrubou elas na arcada quando estava caçando o seu celular,” ele disse.
“Não ligo onde eu as derrubei. Devolva-as.”
Patch ergueu suas mãos, clamando inocência, e se afastou da porta. Ele inclinou um ombro contra os tijolos e me observou chegar até a fechadura. Eu tentei virar a chave. Eu dei um passo para trás. “Vá em frente. Tente. Está presa.”
Com um clique afiado, ele virou a chave. A mão postada na maçaneta, ele arqueou suas sobrancelhas como se para dizer Posso?
Eu engoli em seco, enterrando uma onda de fascínio mútuo e inquietação. “Vá em frente. Não vai esbarrar em ninguém. Estou sozinha em casa.”
“A noite toda?”Imediatamente, eu percebi que podia não ter sido a coisa mais esperta a se dizer. “Dorothea virá logo.” Isso era mentira. Dorothea há muito tinha ido. Estava perto da meia-noite.
“Dorothea?”
“A empregada. Ela é velha – mas forte. Muito forte.” Eu tentei me espremer para passar por ele. Sem sucesso.
“Soa aterrorizante,” ele disse, retirando a chave da fechadura. Ele a segurou para mim.
“Ela consegue limpar uma privada dentro e fora em menos de um minuto. Está mais para assustador.” Tomando a chave, eu passei ao redor dele. Eu tinha plenas intenções de fechar a porta entre nós, mas enquanto me virava, Patch preencheu a entrada, seus braços apoiados em ambos os lados da moldura.
“Não vai me convidar para entrar?” ele perguntou, sorrindo.
Eu pestanejei. Convidá-lo a entrar? Na minha casa? Com ninguém mais em casa?
Patch disse, “É tarde.” Seus olhos seguiram os meus de perto, refletindo um brilho caprichoso. “Você deve estar com fome.”
“Não. Sim. Eu quero dizer, sim, mas –”
De repente ele estava do lado de dentro.
Eu dei três passos para trás; ele cutucou a porta com seu pé para fechá-la. “Gosta de mexicana?” ele perguntou.
“Eu –” Eu gostaria de saber o que você está fazendo dentro da minha casa!
“Tacos?”
“Tacos?” eu ecoei.
Isso pareceu diverti-lo. “Tomates, alface, queijo.”
“Eu sei o que é um taco!”
Antes que eu pudesse impedi-lo, ele passou cavalgando por mim para dentro da casa. No fim do corredor, ele dirigiu-se a esquerda. Para a cozinha.
Ele foi até a pia e abriu a torneira enquanto esfregava sabão até a metade de seus braços. Aparentemente tendo ficado à vontade, ele foi primeiro para a despensa, então pesquisou a geladeira, pegando itens aqui e ali – salsa, queijo, alface, um tomate. Então ele escavou as gavetas e achou uma faca.
Eu suspeitei que estava na metade de um ataque de pânico com a imagem do Patch segurando uma faca quando outra coisa capturou minha atenção. Eu dei dois passos para frente e olhei de soslaio para o meu reflexo em uma das frigideiras suspensas no pendura-panelas. Meu cabelo! Parecia um arbusto seco gigante que tinha rolado para o alto da minha cabeça. Eu bati uma mão na minha boca.
Patch sorriu. “Você tem cabelo ruivo natural?”
Eu o encarei. “Eu não tenho cabelo ruivo.”
“Odeio ter que te informar disso, mas é ruivo. Eu podia tocar fogo nele e ele não ficaria mais vermelho.”
“É castanho.” Então talvez eu tivesse a menor, mais minúscula, mais infinitesimal quantidade de castanho avermelhado no meu cabelo. Eu ainda era morena. “É a iluminação,” eu disse.
“É talvez sejam as lâmpadas incandescentes.” O sorriso dele levantou ambos os cantos de sua boca, e uma covinha surgiu.
“Eu volto logo,” eu disse, me apressando para fora da cozinha.
Eu subi as escadas e prendi meu cabelo em um rabo de cavalo. Com isso fora do caminho, eu juntei meus pensamentos. Eu não estava totalmente confortável com a ideia do Patch vagando livremente pela minha casa – armado com uma faca. E a minha mãe me mataria se descobrisse que eu tinha convidado Patch para entrar quando Dorothea não estava.
“Pode ficar para outro dia?” eu perguntei ao encontrá-lo ainda trabalhando arduamente na cozinha dois minutos mais tarde. Eu coloquei uma mão no meu estômago, sinalizando que ele estava me incomodando. “Enjoada,” eu disse. “Eu acho que foi a carona.”
Ele parou de cortar e olhou para cima. “Eu quase acabei.”
Eu notei que ele tinha trocado de faca por uma lâmina maior – e mais afiada.
Como se ele tivesse uma janela para os meus pensamentos, ele levantou a faca, examinando-a. A lâmina brilhou na luz. Meu estômago se apertou.
“Abaixa a faca,” eu instrui silenciosamente.
Patch olhou de mim para a faca e então novamente. Após um minuto ele a deitou na minha frente. “Não vou te machucar, Nora.”
“Isso é... tranqüilizante,” eu consegui dizer, mas minha garganta estava apertada e seca.
Ele girou a faca, o cabo apontado na minha direção. “Vem aqui. Vou te ensinar a fazer tacos.”
Eu não me movi. Havia um brilho nos olhos dele que me fez pensar que eu devia estar com medo dele... e eu estava. Mas aquele medo era igualmente fascinante. Havia algo extremamente perturbador em estar perto dele. Na presença dele, eu não confiava em mim mesma.
“Que tal... um acordo?” Seu rosto estava curvado, enegrecido e ele olhou para mim através de seus cílios. O efeito era uma impressão de integridade. “Me ajude a fazer tacos, e eu responderei algumas de suas perguntas.”
“Minhas perguntas.”
“Eu acho que você sabe o que eu quero dizer.”
Eu sabia exatamente o que ele queria dizer. Ele estava me dando um vislumbre de seu mundo particular. Um mundo onde ele conseguia falar com a
minha mente. Novamente ele sabia exatamente o que dizer, exatamente no momento certo.
Sem uma palavra, eu me movi para seu lado. Ele deslizou a tábua de corte na minha frente.
“Primeiro,” ele disse, vindo por trás de mim e colocando suas mãos no balcão, bem do lado das minhas, “escolha o seu tomate.” Ele abaixou sua cabeça para que sua boca estivesse na minha orelha. Seu hálito estava quente, fazendo cócegas na minha pele. “Ótimo. Agora, pegue a faca.”
“O chefe sempre fica tão perto?” eu perguntei, não certa se eu gostava ou temia a palpitação que sua proximidade causava dentro de mim.
“Quando ele está revelando segredos culinários, sim. Segure a faca com vontade.”
“Eu estou segurando.”
“Ótimo.” Recuando, ele me deu uma olhada minuciosa, parecendo escrutinar cada imperfeição – seus olhos moviam-se para cima e para baixo, aqui e ali. Para cada momento enervante, eu pensei ter visto um sorriso secreto de aprovação. “Cozinhar não é algo que se ensina,” Patch disse. “É herdado. Ou você tem ou não tem. Como química. Você acha que está pronta para química?”
Eu pressionei a faca pelo tomate; ele foi dividido em dois, cada metade balançando gentilmente na tábua de corte. “Me diz você. Estou pronta para química?”
Patch fez um som profundo que eu não consegui decifrar e sorriu ironicamente.
Após o jantar, Patch levou nossos pratos para a pia. “Eu lavo, você seca.” Caçando nas gavetas na lateral da pia, ele achou um pano de prato e o tirou brincalhonamente para mim.
“Estou pronta para te fazer aquelas perguntas,” eu disse. “Começando com aquela noite na biblioteca. Você me seguiu...”
Eu dissipei. Patch se inclinou preguiçosamente contra a bancada. Cabelo negro saia debaixo de seu boné de beisebol. Um sorriso repuxou as boca. Meus pensamentos dissolveram e bem assim, um pensamento novo penetrou a superfície da minha mente.
Eu quero beijá-lo. Agora.
Patch arqueou suas sobrancelhas. “O quê?”
“Hãn – nada. Nada mesmo. Você lava, eu seco.”
O que aconteceu com tratar Patch como seu pior hábito? Eu perguntei a mim mesma. O que aconteceu com jogar fora o velho, e ficar com o novo?
Não levou muito para terminar com os pratos, e quando terminamos, nos encontramos comprimidos no espaço próximo a pia. Patch se deslocou para pegar o pano de mim, e nossos corpos se tocaram. Nenhum de nós se moveu, segurando o elo frágil que nos unia.
Eu recuei primeiro.
“Assustada?” ele murmurou.
“Não.”
“Mentira.”
Meu pulso subiu um degrau. “Não tenho medo de você.”
“Não?”
Eu falei sem pensar. “Talvez seja só que eu tenha medo de –” eu me amaldiçoei por ter começado a frase. O que eu deveria dizer agora? Eu não estava prestes a admitir para o Patch que tudo nele me assustava. Isso lhe dava permissão para me provocar ainda mais. “Talvez seja só que eu tenha medo de... de –”
“Gostar de mim?”
Aliviada por não ter que terminar minha própria fase, eu automaticamente respondi, “Sim.” Eu percebi tarde demais o que havia confessado. “Quero dizer, não! Definitivamente não. Não era isso que eu estava tentando fazer!”
Patch riu suavemente.
“A verdade é que, parte de mim definitivamente não fica confortável ao seu redor,” eu disse.
Eu agarrei a bancada atrás de mim para me apoiar. “Mas ao mesmo tempo eu sinto uma atração assustadora por você.”
Patch sorriu ironicamente.
“Você é metido demais,” eu disse, usando minha mão para empurrá-lo um passo para longe.
Ele prendeu a minha mão contra seu peito e puxou minha manga pelo meu pulso, cobrindo minha mão com ela. Tão rapidamente quanto, ele fez a mesma coisa com minha outra manga. Ele segurou minha camiseta pelos punhos, minhas mãos capturadas. Minha boca se abriu em protesto.
Me puxando para mais perto, ele não parou até que eu estivesse diretamente na frente dele. De repente ele me levantou na bancada. Meu rosto estava no nível do dele. Ele me fixou com um sorriso negro e convidativo. E foi aí que eu percebi que esse momento estivera dançando nas beiradas das minhas fantasias por diversos dias já.
“Tire seu boné,” eu disse, as palavras saindo antes que eu pudesse impedi-las.
Ele o deslizou ao redor, a aba para trás.
Eu me movi para a beirada da bancada, minhas pernas balançando de cada lado das dele. Algo dentro de mim estava me dizendo para parar – mas eu varri essa voz para o fundo da minha mente.
Ele esparramou suas mãos na bancada, bem do lado de fora dos meus quadris. Inclinando sua cabeça para um lado, ele se moveu mais para perto. O cheiro dele, que era todo de terra escura úmida, me inundou.
Eu inalei duas respirações agudas. Não. Isso não estava certo. Isso não, não com o Patch. Ele era assustador. De um jeito bom, sim. Mas também de um jeito ruim. Um jeito muito ruim.
“Você deveria ir,” eu respirei. “Você definitivamente deveria ir.”
“Ir para cá?” Sua boca estava no meu ombro. “Ou para cá?” Ela se moveu para o meu pescoço.
Meu cérebro não conseguia processar um pensamento lógico. A boca do Patch estava perambulando para o norte, sobre a minha mandíbula, sugando gentilmente minha pele...
“Minhas pernas estão adormecendo,” eu soltei. Não era uma mentira total. Eu estava experimentando sensações de formigamento por todo o meu corpo, inclusive as pernas.
“Eu posso resolver isso.” As mãos do Patch se fecharam nos meus quadris.
De repente meu telefone celular tocou. Eu pulei ao som dele e tateie-o no meu bolso.
“Oi, docinho,” minha mãe disse alegremente.
“Posso te ligar de volta?”
“Claro. O que está acontecendo?”
Eu desliguei o telefone. “Você precisa ir embora,” eu disse ao Patch. “Agora.”
Ele deslizou seu boné de beisebol de volta. Sua boca era o único traço que eu conseguia ver por debaixo dele, e ela se curvou em um sorriso travesso. “Você não está usando maquiagem.”
“Eu devo ter esquecido.”
“Bons sonhos essa noite.”
“Claro. Sem problema.” O que ele tinha dito?
“Sobre aquela festa amanhã à noite...”
“Eu pensarei nisso,” eu consegui dizer.
Patch enfiou um pedaço de papel dentro do meu bolso, seu toque mandando sensações quentes pelas minhas pernas. “Aqui está o endereço. Eu estarei te procurando. Venha sozinha.”
Um momento mais tarde eu escutei a porta da frente fechar atrás de mim. Um rubor feroz subiu até o meu rosto. Perto demais, eu pensei. Não havia nada de errado com fogo... contanto que você não chegasse muito perto. Algo para se ter em mente.
Eu me inclinei contra os armários, tomando fôlegos curtos e rasos.

O Gaurdião - Nicholas Sparks

Quarenta dias após a morte de seu marido, Julie Barenson recebe uma encomenda deixada por ele. Dentro da caixa, encontra um filhote de cachorro dinamarquês e um bilhete no qual Jim promete que sempre cuidará dela. Quatro anos mais tarde, Julie já não pode depender apenas da companhia do fiel Singer, o filhotinho que se tornou um cachorro enorme e estabanado. Depois de tanto sofrimento, ela enfim está pronta para voltar a amar, mas seus primeiros encontros não são nada promissores. Até que surge Richard Franklin, um belo e sofisticado engenheiro que a trata como uma rainha. Julie está animada como havia muito tempo não se sentia, mas, por alguma razão, não consegue compartilhar isso com Mike Harris, seu melhor amigo. Ele, por sua vez, é incapaz de esconder o ciúme que sente dela. Quando percebe que seu desconforto diante de Mike é causado por um sentimento mais forte que amizade, Julie se vê dividida entre esses dois homens. Ela tem que tomar uma decisão. Só não pode imaginar que, em vez de lhe trazer felicidade, essa escolha colocará sua vida em perigo. “O guardião” contém tudo o que os leitores esperam de um romance de Nicholas Sparks, mas desta vez ele se reinventa e acrescenta um novo ingrediente à trama: páginas e mais páginas de muito suspense.Leia um trecho deste livro!

segunda-feira, 3 de junho de 2013

O Casamento - Nicholas Sparks

Após quase 30 anos de casamento, Wilson Lewis é obrigado a encarar uma dolorosa verdade: sua esposa, Jane, parece ter deixado de amá-lo, e ele é o único culpado disso.

Viciado em trabalho, Wilson costumava passar mais tempo no escritório do que com a família. Além disso, nunca conseguiu ser romântico como o sogro era com a própria mulher. A história de amor dos pais de Jane, contada em Diário de uma paixão, sempre foi um exemplo para os filhos de como um casamento deveria ser.

Diante da incapacidade do marido de expressar suas emoções, Jane começa a duvidar de que tenha feito a escolha certa ao se casar com ele. Wilson, porém, sente que seu amor pela esposa só cresceu ao longo dos anos. Agora que seu relacionamento está ameaçado, ele vai fazer o que for necessário para se tornar o homem que Jane sempre desejou que ele fosse.

Em O casamento, Nicholas Sparks faz os leitores relembrarem a alegria de se apaixonar e o desafio de se manterem apaixonados.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Capitulo 8

Sussurro - Capitulo 8

EU VOLTEI PARA A MESA DE PEBOLIM COM UMA FRIA ESTUPEFAÇÃO. Elliot estava inclinado sobre ele, seu rosto mostrando uma concentração competitiva. Vee berrava e ria. Jules ainda estava desaparecido.
Vee olhou por cima do jogo. “Bem? O que aconteceu? O que ele disse para você?”
“Nada. Eu disse a ele para não nos incomodar. Ele foi embora.” minha voz soava monótona.
“Ele não pareceu bravo quando foi embora,” Elliot disse. “O que quer que você tenha dito, funcionou.”
“Que pena,” Vee disse. “Eu estava esperando alguma animação.”
“Prontas para jogar?” Elliot perguntou. “Estou faminto por algumas pizzas arduamente ganhas.”
“É, se o Jules voltar algum dia,” disse Vee. “Estou começando a achar que talvez ele não goste da gente. Ele fica desaparecendo. Estou começando a achar que é uma deixa não-verbal.”
“Está brincando? Ele ama vocês.” Elliot disse com entusiasmo de mais. “Ele só é meio devagar em se acostumar com estranhos. Eu irei achá-lo. Não vão a lugar algum.”
Assim que Vee e eu ficamos sozinhas, eu disse, “Sabe que eu vou te matar, certo?”
Vee levantou suas palmas e deu um passo para trás. “Eu estava te fazendo um favor. Elliot é louquinho por você. Depois que você saiu, eu disse a ele que você tinha, tipo, dez caras te ligando toda noite. Você devia ter visto a cara dele. Mal continha a inveja.”
Eu resmunguei.
“É a lei da oferta e procura,” Vee disse. “Quem pensaria que economia seria útil?”
Eu enfiei minha palma contra minha testa. “Eu preciso de algo.”
“Você precisa do Elliot.”
“Não, eu preciso de açúcar. Bastante. Eu preciso de algodão-doce.” O que eu precisava era de uma borracha grande o bastante para apagar toda a evidência do Patch da minha vida. Particularmente a parte de falar com a mente. Eu estremeci. Como ele estava fazendo isso? E por que eu? A não ser...
que eu tivesse imaginado isso. Bem como eu tinha imaginado bater em alguém com o Neon.
“Eu também precisava de um pouco de açúcar,” Vee disse. “Eu vi um vendedor perto da entrada do parque ao entrarmos. Eu fico aqui para que o Jules e o Elliot não achem que a gente fugiu, e você pode pegar o algodão-doce.”
Do lado de fora, eu retrocedi para a entrada, mas quando eu achei o vendedor de algodão-doce, eu fui distraída por uma visão distante no passadiço. O Arcanjo elevava-se sobre o alto das árvores. Um serpentear de canos fechados nos semáforos e que mergulhavam para fora de vista. Eu me perguntei por que Patch queria se encontrar. Eu senti um soco no meu estômago e provavelmente devia ter aceito isso como resposta, mas apesar das minhas melhores intenções, eu me encontrei continuando pelo passadiço em direção ao Arcanjo.
Eu fiquei com o fluxo do tráfego a pé, mantendo meus olhos no rumo distânte do Arcanjo fazendo curvas no céu. O vento tinha mudado de frio para gelado, mas não era essa a razão de eu me sentir cada vez mais enjoada. A sensação estava de volta aquela sensação fria e de parar o coração de que alguém estava me observando.
Eu roubei um olhar para ambos os lados. Nada anormal na minha visão periférica. Eu girei 180º graus. Um pouco para trás, parado em um pequeno pátio de árvores, uma figura encapuzada se virou e desapareceu na escuridão.
Com o meu coração batendo mais rápido, eu passei por um comprido grupo de pedestres, colocando distância entre eu e a clareira. Diversas passadas adiante, eu olhei para trás novamente. Ninguém se sobressaia me seguindo.
Quando eu encarei à frente novamente, eu trombei em alguém. “Desculpe!” eu falei apressadamente, tentando ganhar novamente meu equilíbrio.
Patch sorriu maliciosamente para mim. “Sou difícil de resistir.”
Eu pestanejei para ele. “Deixe-me em paz.” Eu tentei dar um passo para o lado dele, mas ele me pegou pelo cotovelo.
“Qual o problema? Você parece prestes a vomitar.”
“Você tem esse efeito em mim,” eu retruquei.
Ele riu. Eu tive vontade de chutar suas canelas.
“Você precisa de uma bebida.” Ele ainda me pegava pelo cotovelo, e ele me empurrou na direção do carrinho de limonada.
Eu afundei em meus saltos. “Você quer ajudar? Fica longe de mim.”
Ele empurrou um cacho para longe do meu rosto. “Amo o cabelo. Amo quando está fora de controle. É como ver um lado de você que precisa sair mais freqüentemente.”
Eu alisei meu cabelo furiosamente. Assim que eu percebi que estava tentando me deixar mais apresentável para ele, eu disse, “Tenho que ir. A Vee está esperando.” Uma pausa irritada. “Acho que te vejo na aula na segunda.”
“Ande no Arcanjo comigo.”
Eu estiquei meu pescoço, encarando-o. Gritos estridentes ecoaram enquanto os carros ressoavam nos trilhos.
“Duas pessoas por assento.” Seu sorriso mudou para um sorriso malicioso vagaroso e ousado.
“Não.” De jeito nenhum.
“Se continuar fugindo de mim, você nunca vai descobrir o que realmente está acontecendo.”
Aquele comentário deveria ter feito eu correr. Mas não fez. Era quase como se o Patch soubesse exatamente o que dizer para atiçar a minha curiosidade. Exatamente o que dizer, exatamente no momento certo.
“O que está acontecendo?”
“Só há uma maneira de descobrir.”
“Não posso. Tenho medo de altura. Além do mais, a Vee está esperando.” Só que, de repente, pensar em subir tão alto no ar não me assustava. Não mais. De um jeito absurdo, sabendo que eu estaria com o Patch me fez sentir segura.
“Se você der uma volta completa sem gritar, eu direi ao Treinador para mudar nossos assentos.”
“Eu já tentei. Ele não cede.”
“Eu posso ser mais, convincente que você.”
Eu tomei seu comentário como insulto pessoal. “Eu não giro,” eu disse. “Não por causa de parques de diversão.” Não por sua causa.
No ritmo do Patch, eu caminhei até o final da linha levando para o Arcanjo. Um arrojo de gritos se levantou, então se dissipou, bem acima no céu noturno.
“Eu nunca te vi no Delphic antes,” Patch disse.
“Você vem muito aqui?” Eu fiz uma nota mental para não fazer mais viagens de final de semana para o Delphic.
“Eu tenho um histórico com o local.”
Nós fomos nos aproximando na linha a medida em que os carros se esvaziavam e um novo grupo de perseguidores de emoção embarcava no brinquedo.
“Deixe-me adivinhar,” eu disse. “Você matou aula aqui ao invés de ir para a escola no ano passado.”
Eu estava sendo sarcástica, mas Patch disse, “Responder isso significaria iluminar o meu passado. E eu gostaria de mantê-lo no escuro.”
“Por quê? Qual o problema com o seu passado?”
“Eu acho que agora é uma boa hora para falar sobre isso. Meu passado pode assustá-la.”
Tarde demais, eu pensei.
Ele deu um passo mais para perto e nossos braços se encontraram, uma conexão roçante que fez com que os pelos no meu braço se levantassem. “As coisas que eu tenho a confessar não são as coisas que você conta a sua petulante parceira de biologia,” ele disse.
O vento frigido se envolveu ao meu redor, e quando eu o respirei, ele me encheu com gelo. Mas não se comparou com a gelidez que as palavras de Patch mandaram por mim.
Patch sacudiu seu queixo para a rampa. “Parece que é a nossa vez.”
Eu empurrei o portão giratório. Na hora em que chegamos à plataforma de embarque, os únicos carros vazios eram os bem da frente e bem de trás da montanha-russa. Patch se dirigiu em direção do primeiro.
A construção da montanha-russa não inspirava confiança, remodelado ou não. Parecia ter mais de um século e era feito de madeira que tinha passado muito tempo exposto aos elementos desagradáveis do Maine. O desenho pintado nas laterais era ainda menos inspirador.
O carro que Patch tinha escolhido tinha um agrupamento de quatro desenhos. O primeiro representava uma aglomeração de demônios chifrudos arrancando as asas de um anjo gritando. O próximo desenho mostrava o anjo sem asas empoleirado em uma lápide, observando as crianças brincarem à distância. No terceiro desenho, o anjo sem asas estava perto de uma criança, entortando um dedo para uma pequena menina de olhos verdes. No desenho final, o anjo sem asas passava através do corpo da garota como um fantasma. Os olhos da garota estavam pretos, seu sorriso tinha sumido, e ela tinha brotado chifres como os demônios do primeiro desenho. Uma lua rachada estava pendurada sobre os desenhos.
Eu desviei meus olhos e assegurei a mim mesma que era o ar frigido que estava fazendo minhas pernas tremerem. Eu deslizei para o carro ao lado do Patch.
“Seu passado não me assustaria,” eu disse, ajustando meu cinto de segurança no meu colo. “Acho que eu ficaria mais horrorizada do que tudo.”
“Horrorizada,” ele repetiu. O tom da sua voz me fez acreditar que ele tinha aceito a acusação. Estranho, já que o Patch nunca se degradava.
Os carros rolaram para trás, então se lançaram para frente. Não de um jeito suave, nós nos dirigimos para longe da plataforma, subindo colina acima uniformemente. O cheiro de suor, ferrugem, e água salgada soprando do mar encheu o ar. Patch sentava-se perto o bastante para ser cheirado. Eu capturei o traço mais leve de sabonete de menta espesso.
“Você está pálida,” ele disse, inclinando-se para ser ouvido por sobre os trilhos estalando.
Eu me senti pálida, mas não admiti isso.
No cume da colina, houve um momento de hesitação. Eu conseguia enxergar por quilômetros, observando onde à região rural se misturava com o barulho dos subúrbios e gradualmente se tornava a grade dos lugares de Portland. O vento retinha-se, permitindo que o úmido assentasse na minha pele.
Sem querer, eu roubei uma olhada para o Patch. Eu encontrei um sentido de consolação em tê-lo ao meu lado. Então ele lançou um sorriso sarcástico.
“Assustado, Anjo?”
Eu apertei a barra de metal parafusada na frente do carro enquanto senti meu peso insinuar-se para frente. Uma risada trêmula escapou de mim.
Nosso carro voou demoniacamente rápido, meu cabelo chicoteando atrás de mim. Inclinando-se para a esquerda, então para a direita, nós tremíamos sobre os trilhos. Dentro, eu senti meus órgãos flutuarem e caírem em resposta ao passeio. Eu olhei para baixo, tentando me concentrar em algo que não estivesse se movendo.
Foi então que eu notei que meu cinto de segurança tinha se soltado.
Eu tentei gritar para o Patch, mas minha voz foi engolida pelo movimento do ar. Eu senti meu estômago ficar oco, e eu soltei a barra de metal com uma mão, tentando colocar o cinto de segurança ao redor da minha cintura com a outra. O carro se lançou para a esquerda. Eu bati de ombros com o Patch, pressionando contra ele tão arduamente que doía. O carro levantou vôo, e eu senti se levantar dos trilhos, não totalmente fixo neles.
Nós estávamos submergindo. As luzes piscando nos trilhos me cegavam; eu não conseguia ver pra que lado o trilho se virava no final do mergulho.
Era tarde demais. O carro inclinou-se para a direita. Eu senti uma onda de pânico, e então aconteceu. Meu ombro esquerdo bateu contra a porta do carro. Ela se abriu, e eu fui arrancada do carro enquanto a montanha-russa acelerava sem mim. Eu rolei para os trilhos e lutei por algo para me ancorar. Minhas mãos
não achavam nada, e eu desabei sobre a beirada, mergulhando diretamente para baixo pelo ar negro. O chão se acelerou até mim, e eu abri minha boca para gritar.
Quando dei por mim, o passeio acabou repentinamente na plataforma de desembarque.
Meus braços doíam de tão apertado que Patch me segurava. “Agora, isso é o que eu chamo de grito,” ele disse, sorrindo ironicamente para mim.
Estupefata, eu o observei colocar uma mão sobre sua orelha como se o meu grito ainda ecoasse lá. Nenhum pouco certo do que tinha acabado de acontecer, eu encarei o lugar em seu braço onde as minhas unhas tinham deixado semi-círculos tatuados em sua pele. Então os meus olhos se moveram para o meu cinto de segurança. Estava preso ao redor da minha cintura.
“Meu cinto de segurança...,” eu comecei. “Eu achei –”
“Achou o quê?” Patch perguntou, soando genuinamente interessado.
“Eu achei... eu voei para fora do carro. Eu literalmente achei... que eu ia morrer.”
“Eu acho que esse é o objetivo.”
Nas minhas laterais, meus braços tremeram. Meus joelhos cambaleavam ligeiramente sob o peso do meu corpo.
“Acho que estamos presos como parceiros,” disse Patch. Eu suspeitei de um leve grau de vitória em sua voz. Eu estava espantada demais para discutir.
“O Arcanjo,” eu murmurei, olhando por sobre o meu ombro para o passeio, que tinha começado sua próxima ascendência.
“Significa um anjo de alto nível.” Havia uma presunção definitiva em sua voz. “Quanto mais alto, mais dura é a queda.”
Eu comecei a abrir a minha boca, querendo dizer novamente como eu tinha certeza que tinha deixado o carro só um momento e que forças além da minha habilidade de explicar tinham me posto de volta em segurança atrás do meu cinto de segurança. Ao invés, eu disse, “Eu acho que sou uma garota mais do tipo anjo da guarda.”
Patch sorriu afetadamente de novo. Me guiando pelo caminho, ele disse, “Te levarei de volta para a Arcada.”

Capitulo 7

Sussurro - Capitulo 7

 ERA SÁBADO À NOITE, E DOROTHEA E EU ESTÁVAMOS NA cozinha. Ela tinha acabado de colocar uma caçarola no forno e estava examinando uma lista de tarefas que minha mãe deixou pendurada por um imã na geladeira.
“Sua mãe ligou, Ela não vai chegar até segunda à noite,” Dorothea disse enquanto esfregava ajax na pia da nossa cozinha com um vigor que fez meu cotovelo doer. “Ela deixou uma mensagem na secretária. Ela quer que você ligue para ela. Você está ligando toda noite antes de dormir?”
Eu sentei no banquinho do bar, comendo um bagel amanteigado. Eu tinha acabado de dar uma grande mordida, e agora Dorothea estava me olhando como se quisesse uma resposta. “Hm-hmm,” eu disse, comendo.
“Uma carta da escola chegou hoje.” Ela mexeu seu queixo na direção da pilha de cartas no balcão. “Talvez saiba por quê?”
Eu dei a minha melhor encolhida de ombros inocente e disse, “Nem ideia.” Mentalmente, eu plantei a palma da minha mão firmemente contra minha testa. Há doze meses eu abrira a porta da frente para encontrar a polícia nos degraus. Temos más notícias, eles disseram. O funeral do meu pai foi uma semana depois. Toda segunda à tarde desde então eu aparecia no meu espaço de tempo marcado com o Dr. Hendrickson, o psicólogo da escola. Eu tinha perdido as duas últimas sessões, e se eu não comparecesse essa semana, eu ia ficar encrencada. Era bem provável que a carta fosse um aviso.
“Você tem planos hoje à noite? Você e a Vee estão tomando algo? Talvez um filme aqui em casa?”
“Talvez. Honestamente, Doth, eu posso limpar a pia mais tarde. Venha se sentar e... comer a outra metade do meu bagel.”
O coque cinza de Dorothea estava se desfazendo a medida em que ela esfregava. “Eu vou para uma conferência amanhã,” ela disse. “Em Portland. Dra. Melissa Sandrez vai falar. Ela diz que você projeta um eu mais sexy. Hormônios são drogas poderosas. A não ser que digamos a eles o que queremos, eles dão um tiro pela culatra. Eles se voltam contra nós.” Dorothea se virou, apontando o ajax para mim para dar ênfase. “Agora eu acordo de manhã e levo batom vermelho para o meu espelho. `Eu sou sexy´, eu escrevo. `Os homens me querem. Sessenta e cinco é o novo vinte e cinco.´”
“Você acha que está funcionando?” eu perguntei, tentando arduamente não sorrir.
“Está funcionando,” Dorothea disse sobriamente.
Eu lambi manteiga dos meus dedos, enrolando por uma resposta cabível. “Então você vai passar o fim de semana reinventando seu lado sexy.”
“Toda mulher precisa reinventar seu lado sexy – eu gosto disso. Minha filha colocou implantes. Ela disse que fez isso por si mesma, mas que mulher faz implante para si mesma? Eles são um fado. Ela fez o implante para um homem. Eu espero que você não faça coisas idiotas por um garoto, Nora.” Ela balançou seu dedo para mim.
“Confie em mim, Doth, não há garotos na minha vida.” Está bem, talvez haja dois espreitando na periferia, circulando de longe, mas já que eu não conheço nenhum dos dois muito bem, e um me assusta completamente, pareceu mais seguro fechar meus olhos e fingir que eles na estavam lá.
“Essa é uma coisa boa e uma coisa ruim,” Dorothea disse repreensivamente. “Você acha o garoto errado, e está pedindo por encrenca. Você acha o garoto certo, e achará o amor.” Sua voz se suavizou com as lembranças. “Quando eu era uma garotinha na Alemanha, eu tive que escolher entre dois garotos. Um era um garoto muito levado. O outro era o meu Henry. Estamos alegremente casados por quarenta e um anos.”
Era hora de mudar de assunto. “Como vai, hum, o seu afilhado... Lionel?”
Seus olhos se estreitaram. “Você tem uma queda pelo pequeno Lionel?
“Nãããão.”
“Eu posso bolar alguma coisa –”
“Não, Dorothea, sério. Obrigada, mas – estou realmente me concentrando nas minhas notas agora. Eu quero entrar numa faculdade prestigiada.”
“Se no futuro –”
“Eu te avisarei.”
Eu termino o meu bagel ao som do bate-papo monótono de Dorothea, interpondo alguns oceanos ou “ahams” sempre que ela parava de falar tempo o bastante para esperar pela minha resposta. Eu estava preocupada debatendo se eu eu realmente queria encontrar Elliot hoje à noite ou não. De primeira, se encontrar parecera uma ótima ideia. Mas quanto mais eu pensava sobre isso, mais dúvida se arrastava para dentro. Eu só conhecia o Elliot há alguns dias, por um lado. E eu não estava certa de como minha mãe se sentiria quanto a esse arranjo, por outro lado. Estava ficando tarde, e Delphic ficava a uma viagem de pelo menos meia hora. Mais objetivamente, nos finais de semana o Delphic tinha uma reputação de ser selvagem.
O telefone tocou, e o número de Vee apareceu no identificador de chamada.
“Vamos fazer algo hoje à noite?” ela quis saber.
Eu abri minha boca, calculando minha resposta cuidadosamente. Uma vez que eu contasse a Vee sobre a oferta de Elliot, não haveria volta.
Vee gritou. “Ai, cara! Ai-cara-ai-cara-ai-cara. Eu acabei de derrubar esmalte no sofá. Espera aí, eu vou pegar papel-toalha. Esmalte é solúvel em água?” Um momento mais tarde ela retornou. “Acho que arruinei o sofá. Temos que sair hoje à noite. Eu não quero estar aqui quando o meu último trabalho de arte acidental for descoberto.”
Dorothea tinha se deslocado pelo corredor até o banheiro. Eu não tinha desejo algum de passar a noite toda escutando ela resmungar sobre o encanamento do banheiro enquanto ela limpava, então tomei minha decisão. “Que tal o Delphic Seaport. Elliot e Jules vão. Eles querem se encontrar.”
“Você escondeu a surpresa! Informação vital aqui, Nora. Vou te pegar em quinze minutos.” Eu fui deixada ouvindo o barulho do telefone.
Eu fui para cima e coloquei um confortável suéter de casimira branco, calça jeans escura, e moccasins de mergulho azul-marinho. Eu modelei o cabelo enquadrando meu rosto com os meus cachos naturais, e... voilà! Espirais meio decentes. Eu dei um passo para trás do espelho para fazer uma dupla olhada e me denominei uma cruza entre despreocupada e quase sexy.
Quinze minutos mais tarde exatamente, Vee saltou o Noon pela entrada e apertou a buzina de modo destacado. Geralmente eu levava dez minutos para percorrer o caminho entre as nossas casas, mas eu geralmente prestava atenção ao limite de velocidade. Vee entendia a palavra velocidade, mas limite não fazia parte de seu vocabulário.
“Eu vou ao Delphic Seaport com a Vee,” eu gritei para Dorothea. “Se a mamãe ligar, você se importa de repassar a mensagem?”
Dorothea saiu bamboleando do banheiro. “Até Delphic? Tão tarde?”
“Divirta-se na sua conferência!” eu disse, escapando porta afora antes que ela conseguisse protestar ou colocar a minha mãe no telefone.
O cabelo loiro da Vee estava puxado em um rabo-de-cavalo alto, grandes e gordos cachos caindo. Brincos de aro dourados pendiam das suas orelhas. Batom cereja. Rímel preto e alongador.
“Como você fez isso?” eu perguntei. “Você teve cinco minutos para se arrumar.”
“Sempre preparada.” Vee me lançou um sorriso irônico. “Eu sou o sonho de um Escoteiro.”
Ela me deu uma rápida olhadela crítica.
“O quê?” eu disse.
“Vamos nos encontrar com garotos hoje à noite.”
“Da última vez que eu chequei, sim.”
“Garotos gostam de garotas que se parecem com... garotas.”
Eu arqueei minha sobrancelha. “E como eu me pareço?”
“Como se você tivesse saído do banho e decidido que só isso já era o bastante para parecer apresentável. Não me entenda mal as roupas são boas, e cabelo está legal, mas o resto... aqui.” Ela esticou sua mão para dentro de sua bolsa. “Sendo a amiga que eu sou, vou te emprestar meu batom. E meu rímel, mas só se você jurar que não tem uma doença ocular contagiosa.”
“Eu não tenho uma doença ocular.”
“Só estou me precavendo.”
“Eu passo.”
A boca de Vee caiu, parcialmente de brincadeira, parcialmente séria. “Você se sentirá nua sem ele!”
“Soa bem com o tipo de aparência que você adotaria,” eu disse.
Bem honestamente eu estava indecisa sobre ir sem maquiagem. Não porque eu realmente me sentisse um pouco nua, mas porque Patch tinha colocado a sugestão de não usar maquiagem na minha mente. Em um esforço para me fazer sentir melhor, eu disse a mim mesma que a minha dignidade estava em questão. Tampouco o meu orgulho. Tinham me dado uma sugestão, e eu tinha a mente aberta o bastante para tentar isso. O que eu não queria reconhecer é que eu tinha escolhido especificamente uma noite que sabia que não veria o Patch para testar isso.
Uma meia hora mais tarde Vee dirigiu sob os portões do Delphic Seaport. Fomos forçadas a estacionar na ponta mais longe do estacionamento, devido ao pesado tráfego do final de semana de abertura. Aconchegado bem na costa Delphic não é conhecido por seu tempo ameno. Um vento fraco tinha aumentado, varrendo sacos de pipoca e embalagens de doce ao redor dos nossos calcanhares enquanto Vee e eu andávamos na direção do guichê de ingressos. As árvores tinham há muito perdido suas folhas, e seus galhos assomavam-se sobre nós como dedos deslocados. O Delphic Seaport bombava o verão todo com um parque de diversões, mascaradas, cabines de previsão do futuro, músicos ciganos e um show de horrores. Eu nunca tinha certeza se as deformidades humanas eram reais ou uma ilusão.
“Um adulto, por favor,” eu disse à mulher no guichê de ingressos. Ela tomou meu dinheiro deslizou uma pulseira sob a janela. Então ela sorriu, expondo dentes de vampiro brancos de plástico, borrados de vermelho com batom.
“Divirta-se,” ela disse em uma voz sem fôlego. “E não se esqueça de experimentar nossa montanha-russa recentemente remodelada.” Ela bateu em seu lado do vidro, apontando para uma pilha de mapas do parque e de folhetos.
Eu peguei um de cada a caminho dos portões giratórios. No folheto se lia:
                                           PARQUE DE DIVERSÕES DELPHIC
                                              MAIS NOVA SENSAÇÃO!
                                                      O ARCANJO
                                          REMODELADO E RENOVADO!
                                          CAIA EM DESGRAÇA NESSA
                                         QUEDA VERTICAL DE 30 METROS
Vee leu o folheto sobre o meu ombro. Suas unhas começaram a perfurar a pele do meu braço. “Temos de ir nesse!” ela berrou.
“Por último,” eu prometi, esperando que se fôssemos em todos os outros antes, ela se esqueceria desse. Eu não tinha tido medo de altura há anos, provavelmente porque eu tinha evitado-as convenientemente por anos. Eu não tinha certeza se eu já estava pronta para descobrir se o tempo tinha dissipado meu medo delas.
Após termos ido na roda gigante, nos carrinhos de bate-bate, no Tapete Mágico, e em algumas das cabines de jogos, Vee e eu decidimos que era hora de procurar o Elliot e o Jules.
“Hmm,” disse Vee, olhando para ambos os lados do caminho curvante do parque. Dividimos um silêncio pensativo.
“A arcada,” eu disse por fim.
“Boa”
Nós tínhamos acabado de passar pelas portas para a arcada quando eu o vi. Não Elliot. Não Jules.
Patch.
Ele olhou por cima de seu vídeo-game. O mesmo boné de beisebol que ele tinha usado quando eu o vi durante a EF encobriu a maior parte de seu rosto, mas eu tinha certeza de ter visto um relampejo de sorriso. De primeira pareceu amigável, mas então eu me lembrei de como ele tinha entrado nos meus pensamentos, e eu fiquei gelada até o osso.
Se eu tivesse sorte, Vee não tinha visto-o. Eu a empurrei na direção da multidão, deixando o Patch sair do campo de visão. A última coisa que eu precisava era que ela sugerisse que fôssemos até lá e começássemos uma conversa.
“Lá estão eles!” Vee disse, acenando seu braço por cima da cabeça. “Jules! Elliot! Aqui!”
“Boa noite, damas,” Elliot disse, abrindo caminho pela multidão. Jules moveu-se atrás dele, parecendo tão entusiasmado quanto um bolo de carne de três dias. “Posso comprar uma coca para ambas?”
“É uma boa,” disse Vee. Ela estava olhando diretamente para Jules. “Vou querer uma Diet.”
Jules murmurou uma desculpa sobre precisar usar o banheiro e escorregou de volta para dentro da multidão.
Cinco minutos mais tarde Elliot retornou com as cocas. Após dividi-las entre nós, ele esfregou suas mãos e examinou o chão. “Por onde começamos?”
“E quanto ao Jules?” Vee perguntou.
“Ele nos achará.”
“Air hockey,” eu disse imediatamente air rockey ficava do outro lado da arcada. Quanto mais distante de Patch, melhor. Eu disse a mim mesma que era uma coincidência ele estar aqui, mas os meus instintos discordavam.
“Aah, olha!” Vee interpôs. “Pebolim!” Ela já estava ziguezagueando em direção a uma mesa livre. “Jules e eu contra vocês dois. Os perdedores pagam a pizza.”
“Justo,” disse Elliot.
O pebolim podia ter sido legal, se a mesa não ficasse a uma curta distância de onde Patch jogava seu jogo. Eu disse a mim mesma para ignorá-lo. Se eu ficasse de costas para ele, eu mal notaria que ele estava lá. Talvez Vee não o notasse também.
“Ei, Nora, aquele não é o Patch?” Vee disse.
“Hmm?” eu disse inocentemente.
Ela apontou, “Lá. É ele, não é?”
“Eu duvido que seja. Elliot e eu somos o time branco, então?”
“Patch é o parceiro de biologia da Nora,” Vee explicou para Elliot. Ela piscou astutamente para mim, mas ficou com uma cara de inocente no momento em que Elliot prestou atenção nela. Eu balancei minha cabeça sutil, mas firmemente, para ele transmitindo uma mensagem silenciosa – pare.
“Ele fica olhando para cá,” Vee disse em voz mais baixa. Ela se debruçou pela mesa de pebolim, tentando parecer sua conversa comigo parecer privada, mas ela sussurrou alto o bastante que Elliot não teve escolha a não ser escutar. “Ele vai começar a se perguntar o que você está fazendo aqui com –” Ela balançou sua cabeça para Elliot.
Eu fechei meus olhos e visualizei bater a minha cabeça contra a parede.
“Patch deixou bem claro que gostaria de ser mais do que parceiro de biologia com a Nora,” Vee continuou. “Não que alguém possa culpá-la.”
“É assim?” disse Elliot, olhando-me de um jeito que dizia que ele não estava surpreso. Ele suspeitava desde o começo. Eu notei que ele tinha dado um passo mais para perto.
Vee me lançou um sorriso triunfante. Agradeça-me mais tarde, ele dizia.
“Não é assim,” eu corrigi. “É –”
“Duas vezes pior,” Vee disse. “Nora suspeita que ele esteja perseguindo-a. A polícia está quase se envolvendo.”
“Vamos jogar?” eu disse audivelmente. Eu derrubei a bolinha no centro da mesa. Ninguém notou.
“Você quer que eu fale com ele?” Elliot me perguntou. “Eu vou explicar que não estamos procurando encrenca. Eu direi a ele que você está aqui comigo, e se ele tiver um problema com isso, pode discuti-lo comigo.”
Não era nessa direção que eu queria que a conversa fosse. Não mesmo. “O que aconteceu ao Jules?” eu disse. “Ele saiu faz um tempão.”
“É, talvez ele tenha caído na privada,” disse Vee.
“Deixa que eu falo com o Patch,” Elliot disse.
Embora eu gostasse da preocupação, eu não gostava da ideia de Elliot tendo um combate direto com o Patch. Patch era desconhecido: intangível, assustador, e desconhecido. Quem sabia do que ele era capaz? Elliot era legal demais para enfrentar o Patch.
“Ele não me assusta,” Elliot disse, como se para refutar os meus pensamentos.
Obviamente, isso era algo que Elliot e eu discordávamos.
“Péssima ideia,” eu disse.
“Ótima ideia,” Vee disse. “De outro modo, Patch pode ficar... violento. Lembra da última vez?”
“Última vez?!” Eu balbuciei para ela.
Eu não fazia ideia do porque da Vee estar fazendo isso, outra que ela não tem tendência de tornar tudo o mais dramático possível. Sua ideia de drama era a minha ideia de humilhação mórbida.
“Sem ofensa, mas esse cara parece estranho,” disse Elliot. “Me dê dois minutos com ele.” Ele começou a andar até lá.
“Não!” eu disse, puxando as manga para pará-lo. “Ele, hm, pode ficar violento novamente. Deixe-me cuidar disso.” Eu estreitei um olhar para Vee.
“Tem certeza?” Elliot disse. “Fico mais do que feliz em fazê-lo.”
“Eu acho que é melhor vindo de mim.”
Eu enxuguei minhas palmas na minha calça jeans, e após tomar um fôlego bastante estabilizante, eu comecei a apertar a distância entre o Patch e eu, que era só a largura de alguns consoles de jogos. Eu não fazia ideia do que diria quando o alcançasse. Com sorte só um breve olá. Então eu podia voltar e tranqüilizar. Elliot e Vee que tudo estava sob controle.
Patch estava vestido como de costume: camisa preta, calça jeans preta, e um fino colar prata que relampejava contra sua pele escura. Suas mangas estavam empurradas em seus antebraços, e eu conseguia ver seus músculos trabalhando na medida em que apertava os botões. Ele era alto e magro e austero, e eu não teria ficado surpresa se debaixo de suas roupas ele possuísse diversas cicatrizes, lembranças de brigas de rua e outro comportamento imprudente. Não que eu quisesse olhar debaixo de suas roupas.
Quando eu cheguei no console do Patch, eu bati uma mão contra a lateral para chamar sua atenção. Na voz mais calma que consegui, eu disse, “Pac-Man? Ou é Donkey Kong?” Na verdade, parecia um pouco mais violento e militar.
Um sorriso irônico vagaroso espalhou-se pelo seu rosto. “Beisebol. Acha que talvez possa ficar atrás de mim e me dar algumas dicas?”
Bombas incendiárias irromperam pela tela, e corpos gritando velejavam pelo ar. Obviamente, ele não estava jogando beisebol.
“Qual o nome dele?” Patch perguntou, direcionando um aceno quase imperceptível para a mesa de pebolim.
“Elliot. Escuta, tenho que ser breve. Eles estão esperando.”
“Eu já o vi antes.”
“Ele é novo. Acabou de se transferir.”
“Primeira semana de escola e ele já fez amigos. Cara de sorte.” Ele deslizou um olhar sobre mim. “Pode ter um lado sombrio e perigoso que não conhecemos.”
“Parece ser a minha especialidade.”
Eu esperei que ele entendesse o que eu quis dizer, mas ele só disse, “Está a fim de jogar?” Ele inclinou sua cabeça na direção dos fundos da arcada. Através da multidão eu conseguia discernir as mesas de sinuca.
“Nora!” Vee chamou. “Venha para cá. Elliot está enfiando uma derrota pela minha goela abaixo.”
“Não posso,” eu disse ao Patch.
“Se eu ganhar,” ele disse, como se não tivesse intenção de ser recusado, “você dirá ao Elliot que algo surgiu. Você dirá a ele que não está mais livre hoje à noite.”
Eu não consegui evitar; ele era arrogante demais. Eu disse, “E se eu ganhar?”
Seus olhos me vasculharam, da cabeça aos pés. “Eu não acho que temos que nos preocupar com isso.”
Antes que eu pudesse me impedir, eu soquei seu braço.
“Cuidado,” ele disse em uma voz baixa. “Eles podem achar que estamos flertando.”
Eu senti vontade de me chutar, porque isso era exatamente o que estávamos fazendo. Mas não era minha culpa – era do Patch. Em contato próximo a ele, eu experimentava uma polaridade confusa de desejos. Parte de mim queria fugir dele gritando, Fogo! Uma parte mais impulsiva estava tentada a ver o quanto eu conseguia chegar perto sem... entrar em combustão.
“Um jogo de sinuca,” ele tentou.
“Estou aqui com outra pessoa.”
“Se dirija às mesas de sinuca. Eu cuidarei disso.”
Eu cruzei meus braços, esperando parecer severa e um pouco exasperada, mas ao mesmo tempo, eu tive que morder meu lábio para me impedir de mostrar uma posição ligeiramente mais positiva. “O que você vai fazer? Lutar com o Elliot?”
“Se chegar a esse ponto.”
Eu tinha quase certeza de que ele estava brincando. Quase.
“Uma mesa de sinuca acabou de vagar. Vá pegá-la.” Eu... te... desafio.
Eu endureci. “Como fez isso?”
Quando ele não negou imediatamente, eu senti um aperto de pânico. Era real. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. As palmas das minhas mãos ficaram suadas.
“Como fez isso?” eu repeti.
Ele me deu um sorriso dissimulado. “Fiz o quê?”
“Não,” eu avisei. “Não finja que não está fazendo isso.”
Ele inclinou um ombro contra o console e olhou para baixo para mim. “Diga-me o que eu devo estar fazendo.”
“Meus.... pensamentos.”
“O que tem eles?”
“Corta essa, Patch.”
Ele olhou ao redor teatralmente. “Você não quer dizer – falar com a sua mente? Você sabe o quanto isso soa doido, certo?”
Engolindo em seco, eu disse na voz mais calma que consegui, “Você me assusta, e não tenho certeza se você é bom para mim.”
“Eu podia mudar você de ideia.”
“Noooora!” Vee chamou por sobre o ruído de vozes e os bipes eletrônicos.
“Me encontre no Arcanjo,” Patch disse.
Eu dei um passo para trás. “Não,” eu disse impulsivamente.
Patch veio atrás de mim, e um arrepio içou pela minha espinha. “Estarei esperando,” ele disse na minha orelha. Então ele deslizou para fora da arcada.